terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Será que estou ficando velho?

Você já se perguntou como vai ser quando ficar velho? Podemos descobrir observando como as coisas acontecem hoje e projetando-as para o futuro. Gosto de ficar olhando o movimento das pessoas em lugares públicos. Aeroportos nos mostram as diferenças de raças e costumes no caminhar, no vestir e na bagagem que carregam. Os supermercados por sua vez nos permitem perceber os hábitos de consumo e a moda do dia-a-dia, que é bem diferente da moda oficial.

Outro dia, eu estava sentado em um daqueles bancos que alguns supermercados têm na entrada, de madeira, em formato de bancos da praça. Eu estava ali por causa da minha dificuldade de caminhar. Esse supermercado em particular não possuía aqueles carrinhos elétricos, que venho usando para ajudar nas compras da casa. O movimento estava intenso e a diversidade era enorme. E as pessoas que costumam frequentar essa loja são os patrões e não os empregados.

Alguns vestidos com trajes de festa, outros com roupas de andar em casa. Enquanto descansava, observei que entraram quatro senhores vestidos de camisetas coloridas, bermudas e tênis. Passaram por mim falando em italiano. Pareciam interessados no que iriam comprar, pois estavam discutindo em voz alta. Logo em seguida, entrou uma senhora de mais de setenta anos com uma bengala de quatro patas.

Aquilo me chamou a atenção, pois me lembrei dos dois anos e meio que usei muleta. Eu já pensei em usar bengala, mas não como aquela com quatro pernas e de alumínio. As vantagens daquela bengala eram claras, mas não coincidiam com os meus desejos. A senhora vinha acompanhada de outra senhora um pouco mais moça, mas muito parecida com ela. Era como se fosse o caso daquele comercial de TV: “Eu serei você amanhã”.

A senhora da bengala sentou ao meu lado com grande dificuldade. A acompanhante dirigiu-se a ela com um pouco de frieza, em minha opinião pelo menos.

– Mãe, fica aqui que eu vou buscar um café para a senhora.

Não consegui ouvir a resposta, mas a filha saiu rapidamente e voltou com um cafezinho em um copo plástico, daqueles pequenos. A senhora pegou o copo depois de trocar a bengala de uma mão para a outra algumas vezes. Quando finalmente segurou o copo, reclamou:

– Está quente!

A filha tomou o copo da mão da mãe e voltou logo em seguida com o café, agora com dois copos, um dentro do outro, e afirmando:

– Mãe, eu coloquei açúcar no café.

Deixou a mãe ao meu lado com o copo em uma mão e a bengala na outra. A senhora fez menção de levantar mais de três vezes. Toda vez que olhava para o copo na mão, desistia. Fiquei com vontade de oferecer ajuda, mas não o fiz, fiquei só observando. A senhora ficou quieta, mas parecia ansiosa, pois olhava para os corredores do supermercado como que procurando alguém. A filha não demorou a voltar e a senhora estendeu o copo com o café.

– Mãe, por que não tomou o café?

– Está quente!

– Mãe, eu coloquei outro copo!

– Está quente! Eu não tomo café quente – respondeu a senhora, sacudindo a cabeça para os lados com um ar de desaprovação nos lábios.

Naquele momento, eu tive a sensação de que aquele movimento de cabeça e o gesto de desaprovação, juntos, estavam gritando: “Todos estes anos e minha filha ainda não aprendeu como eu gosto do café...”.

Será que vai ser assim quando eu ficar velho?"

Publicado originalmente em 03/02/2009

Álvaro Larangeira Teixeira - escritor e administrador de empresas, especialista em tecnologia da informação e apaixonado pelo motociclismo.

Álvaro faleceu em 14/09/2009. Se alguém possuir outras crônicas do Álvaro ou sobre ele, peço que me encaminhem para serem publicadas.

Fonte! Chasque publicada no síto do Ricardo Orlandini, na seção Colunistas -  http://www.ricardoorlandini.net/, no dia 10 de janeiro de 2010.

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Nota do Sítio!

Talvez a coluna do Álvaro não fale diretamente de dinheiro, mas, dá pra enveredar para este assunto: estou no caminho da velhice e o que eu e a esposa não queremos, quando a velhice chegar, é depender da boa vontade das nossas filhas (financeiramente falando) e na minha opinião, pior, depender financeiramente dos genros....

Por isso, um pouco tardio, estamos no caminho da aposentadoria complementar, para somar junto com a do INSS! E para isso existem vários produtos financeiros no mercado. Basta dar uma pesquisada aqui mesmo no sítio e ler bastante ou então dar uma pesquisada na internet, nos jornais e revistas especialidadas.

Baita abraço

Valdemar Engroff - o gaúcho taura!